Coleção Clássicos da Literatura Juvenil

Apresentação e resenha dos livros da coleção editada pela Abril Cultural entre 1971 e 1973.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Volume 25 - Caçadores de cavalos - Zane Grey


Quem aqui já ouviu falar de um sujeito chamado Zane Grey? Até ler Caçadores de cavalos, e fã de filmes como sou, o único Zane de que tinha conhecimento era Billy Zane, ator que atuou em Titanic (1998) e Só Você (1994), com Marisa Tomei e Robert Downey Jr.

Este, no entanto, é bem mais profílico, no que diz respeito à produção, e muito mais antigo. Nascido em 1872, Pearl Zane Gray, natural do estado de Ohio, tinha boa origem americana, da qual uma das raízes advinha dos peregrinos quacres vindos em 1673 da Inglaterra, e escolheu ser escritor numa época em que fervilhavam, nos Estados Unidos, a tecnologia e a produção cultural.

Dono de um background muito americano e de leituras tais como Robinson Crusoé e as Histórias das Meias de Couro (Leatherstocking Tales, sobre as quais já falei na resenha do sétimo volume da coleção Clássicos da Literatura Juvenil), Zane fez mais do que simplesmente reproduzir a ideologia do país num escrito de aventura: ele ajudou a imortalizar o faroeste (ou Western) como modelo de consumo de massa que muito agradava aos americanos, e que mais tarde viria a ser, por muitos anos, fonte de ganha-pão de muitas editoras e da própria indústria hollywoodiana, quando mais nada parecia que poderia salvá-los do desmoronamento causado pela Depressão que se seguiu a 1929.

Nesta narrativa, o autor nos apresenta o herói Ben Ide, um jovem renegado pelo pai porque se nega a ser fazendeiro e se dedica, na Califórnia dos anos 1880, a domar cavalos selvagens. Por isso, vive nos ermos das terras desertas do estado californiano, que passa por anos de seca, e onde uma nascente em suas terras é a salvação de poucos gados e cavalos. Para companhia, conta com o exilado índio Modoc e com o misterioso Nevada. Ambos o auxiliam nas tarefas diárias e nos negócios com terras e cavalos.

Do outro lado da narrativa, há dois pólos: a mãe e a a irmã de Ide, e a sua namorada de infância Ina Blaine, que agora retorna do internato para moças. A família Blaine, antes de pobres fazendeiros e enriquecida nos últimos anos, mantém relações com o excuso Les Setter, que paulatinamente obriga o patriarca Hart Blaine a se comprometer financeira e legalmente com negócios dos quais ele não tem plena ciência.

A trama gira em torno de três tópicos principais: a recuperação de Ben Ide frente à sociedade e à família como proprietário de cavalos e terras e não como ladrão de gado, como Les Setter faz parecer; a recuperação dos negócios das famílias Ide e Blaine, que se vêem enroladas nas mãos de Setter; e o casamento de Ina com Ben.

De certa forma, a narrativa é muito parecida com o que hoje se encontra, por exemplo, na coleção Clássicos Históricos publicadas pelas editoras Harlequin e, no Brasil, Abril Cultural. Acredito, porém, que a possibilidade de que estes romances de consumo de massa existam hoje mais em função da inauguração de um gênero que Zane (que abandonou a carreira de dentista para ser escritor e publicar, em vida e postumamente, 54 obras) ajudou a fundar e que, mais tarde, escritores como Laura Ingalls Wilder viriam a perpetuar de forma ainda mais intensa -- ou, dependendo do ponto de vista do leitor e de sua ideologia política, virulenta, porquanto se usa um romance para elevar aspectos idílicos da vida no oeste americano sem que se coloque às claras, no caso de Wilder, assuntos muito graves, como fome, morte e necessidade de trabalho infantil. Zane é mais feliz no que diz respeito a este aspecto: embora ele mantenha um ar idílico e aventureiro dos caubóis solitários das montanhas do oeste, ele consegue mostrar que existe o lado dos enganadores e ladrões, e das mulheres que não são tão frágeis quanto porcelanas e que, por isso, tem seu papel fundamental desempenhado no processo de assentamento de uma família ou comunidade numa terra estranha e, muitas vezes, hostil. Ainda assim, seus romances sofreram, na época contemporânea de Zane, dura crítica justamente porque ele exaltava os valores morais acima da dura realidade da vida no oeste.

Esta visão era, na verdade, propícia ao contexto histórico de lançamento dos livros. Como eu comentei, até 1929, o mercado vivia os anos do florescimento cultural cosmopolita, a consolidação da indústria e o crescimento vertiginoso da economia, que se baseava no consumo desenfreado das então chamadas novas tecnologias. A situação mudou drasticamente quando a crise veio e abalou profundamente todas as estruturas da sociedade americana e, por isso, um dos modos de recuperar os valores que, em meio à miséria que corria solta o território, seriam capazes de fazer um povo se levantar unido e trabalhar por quase nada, em vez de se revoltar, era resgatar a velha história dos valores do homem que constrói o próprio sonho a partir de nada além de poeira e do suor do seu trabalho. Esse esforço ideológico realizado por escritores e por Hollywood foi muito bem acolhido por todos, e ajudou a [re]construir o país forte, seguro e poderoso que hoje conhecemos (e aí, é claro que não coloco questões políticas, econômicas ou trabalhistas em discussão, numa pequena resenha, mas que existiram, existiram sim e foram documentadas por historiadores e pela mídia).

Como vemos hoje, histórias como a de Zane desencadearam os heróis que vieram de outras eras e de outros contextos -- o caubói do espaço, o desbravador de planetas e terras inóspitas, e todo tipo de literatura que dá asas à imaginação de um público que, por sua característica etária, está se descobrindo e se afirmando em todos os sentidos. E, nesse sentido, obras como Caçadores de cavalos e Nevada (que veremos adiante) não só reafirmam uma nação, mas ajudam-nos a resgatar o espírito da identidade própria e da autonomia de ações em prol do bem -- ainda que utopicamente.

Fonte de informações sobre o autor (em inglês): http://en.wikipedia.org/wiki/Zane_Grey

3 Comentários:

Blogger Paula Marcon disse...

Me passa um pouco do seu talento e da sua disciplina? To precisando...

7 de julho de 2010 às 08:49  
Blogger Rosa D. disse...

La reseñaes perfecta, y el libro,al menos para mí, muy entrañable aún después de 30 años (lo leí a los 12). Gracias.

15 de abril de 2017 às 14:08  
Blogger Unknown disse...

Estou (re)lendo esse livro.

4 de maio de 2020 às 11:05  

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